o poeta e o marceneiro 

O Poeta e o Marceneiro

Antonio Arney


Dito em termos fenomenológicos, a poesia é uma sentença que não cabe no interior de sua extensão. Nela, habita sempre algum fato, alguma palavra, com outra regularidade, que assegura um tropeço, obrigando advir outro caminho – um duplo deste trajeto que se apresenta, malgrado estreitas semelhanças, absolutamente distinto.

O espantoso é que este e aquele teimam em pertencer às mesmas cercanias. Poderíamos ser poetas. Nossas atividades, até as mais simples, compõem trama tão complexa que é por obra da sorte que não nos perdemos nesses meandros. A sorte é destino, é finalidade. E é o horizonte da finalidade que nos assegura um rumo. Não fosse a obediência em se orientar por esse ponto, os nortes haveriam de ser incontáveis. O marceneiro garante
o seu ofício (tal como outros profissionais) respaldado nessa submissão. A historicidade das matérias, as relações que os itens tecem entre si, a afetividade e a dedicação com que o marceneiro se entrega a cada um e a todos, tudo isso evapora, tudo isso fenece, para que, no lugar deles, compareça a cadeira, a mesa, a porta. Ao final, a cadeira, a mesa, a porta, é tudo o que resta de toda aquela existência.


Antonio Arney tem os atributos de um bom marceneiro. Conhece as diferentes espécies de madeira, sabe de suas vidas e sabe perfeitamente discriminá-las conforme as qualidades que cada uma ostenta. Igualmente, domina os meios de dimensionar essa matéria para seu melhor aproveitamento. Por fim, dispõe de conhecimento construtivo, bem como do manejo dos instrumentos necessários para convertê-la ao território do utilitário. O que lhe falta é se deixar ditar pela finalidade.


O que é essencial ao marceneiro, não lhe constrange. Age como se a isso desconhecesse. Assim, os seus feitos, ao menos os que aqui importam, não sobrevêm como mesas ou cadeiras. Neles, permanece tudo aquilo que primordialmente deveria faltar: madeiras e demais materiais se mostram incansáveis em contar as suas histórias; nunca cessam de exibir, destituídas
de qualquer pudor, relacionamentos que deveriam se manter ocultos; porcas e parafusos que continuadamente se abraçam sem nenhum motivo protocolar e o mesmo se diga de metais e madeiras que se avizinham.


Quando Antonio Arney iniciou a sua carreira, a cena artística, não necessariamente da cidade, já registrava obras advindas da imaginação conceitual. Embora o emprego de materiais ordinários possa embaçar a distinção entre as ações, já que este e alguns daqueles lançam mão de fatos comuns (é possível até que a aparição da arte conceitual tenha estimulado as criações de Arney), os construtos são substancialmente distintos. O fazer do artista paranaense espelha um esmero compatível ao dos artesãos – o que é avesso aos termos conceituais. Além disso, ao ostentar um amor a toda prova em sua feitura, a poética se esquiva taxativamente do mundo dos conceitos. Na medida em que comungam de um mesmo tom, um pedaço de madeira pode deitar junto ao costado de outro pedaço de tábua, sem que isso desperte qualquer desavença; uma quantidade de ferrugem providencia empatia entre um parafuso e outro metal que lhe faz par; extensões lisas declaram a sua admiração diante de superfícies repletas de veios. Tudo comparece como obra da afeição, da amizade, do carinho, da meiguice, da ternura e de seus tantos sinônimos. Na obra de Arney, as diferenças entabulam uma vida em comum, sustentada na afetividade que ele faz vir à tona.


Não obstante, os mais recentes trabalhos do artista parecem mirar outras pretensões. Ainda reina alguma afetividade, mas essa exala sinais de esbatimento. Em contrapartida, e em contraste, as cores agora resultam mais intensas. Contudo, a maior mudança se faz patente no território que dita a sua sina: as novas criações parecem empenhadas em ocasionar sua finalidade. Madeiras de várias procedências somadas a metais, parafusos, papéis e tingimentos dão formas a um suposto
objeto, que se insinua como sendo um receptáculo de cunho religioso: uma capelinha. A poesia resiste na amarração de um fio. Ainda que concernente ao sagrado, um objeto, mesmo sendo uma capelinha, está investido da finalidade, o que pode lhe corroer o dorso poético. Outra mirada, contudo, traz ao conjunto uma nova significação.


O que consta no cerne do hipotético objeto, não é nenhuma imagem que providencia um credo, mas restos de madeira, itens sem qualquer serventia, fatos destinados ao rejeito. Eles comparecem como que tomados pelo torpor, refratários ao ativismo; sem o ardor de outros tempos. Visto que, na atualidade, o ofício do marceneiro segue em rumo ao desaparecimento, o alento não pode realmente precipitar. Apreciada por diferentes ângulos, a fortuna que o ofício acumulava perdeu muito do seu valor. A antiga variedade das madeiras foi substituída por materiais que já não exigem o cuidado e a
presteza que antes se requeria. O elenco de tarefas e de possibilidades pertinentes à marcenaria se restringiu de tal modo que se facultou ao maquinismo suprir a ausência do empenho humano – e com vantagens. Junto a esses exemplos, tantos outros poderiam ser ainda arrolados para sugerir uma imagem nítida dessa decadência.


A poética de Arney extrai, sobremaneira, dessa experiência imediata, os seus fatos. Assim sendo, a sua acuidade alcança essa sociabilidade. Daí as mudanças. Delas, parece sobressair um mundo desgastado. O universo que tanto forneceu narrativas às suas invenções somente ocorre na iminência das lembranças. Na nova forma de vida, itens que então eram preciosos, agora comparecem condenados à condição de rejeitos e ao descarte, pois não encontram qualquer amparo no rol do consumo. Para abrigá-los, visto que, em seu imaginário, se mantêm como pertences estimados, o artista reclama acontecimentos relativos a um lugar onde o sagrado cultiva a mesma corporeidade da arte: os seus receptáculos se assemelham a retábulos pré-renascentistas, no centro dos quais instala uma variedade de destroços. São tempos difíceis. A permanência daqueles aos quais ele quer dar guarida já não pode ser garantida por razões de afeto.

 

Assim, quando o redor, a vida da qual ele extraía sua ânima, expira, sobra-lhe a arte. É por intermédio dela, e igualmente da referência ao culto, que Antonio Arney busca um refúgio para assegurar a sobrevivência de seus companheiros de tantas jornadas – e também a nossa. Ele próprio se segura nisso. Não é a poesia que resiste na amarração de um fio: é a vida, aquela que foi tão generosa, que se dispõe em perigo. E se a arte faltar? O que nos sobra?


Cristiane Silveira e Marco Silveira Mello
Novembro de 2016

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