caixa de maquiagem 

CAIXA DE MAQUIAGEM

Livia Fontana

Conversa realizada por e-mail entre Lívia Fontana e Fábio Noronha (15/08-07/09/2016)


Fábio Noronha: Lívia, você vem da publicidade, não é? E sua participação no campo da arte é recente, mas você ocupa duas posições, a de galerista e a de artista. Então, me fala um pouco sobre sua aproximação ao campo da arte.


Livia Fontana: Sim, minha experiência profissional iniciou na publicidade, com o design gráfico e a direção de arte para filmes, porém venho me dedicando a arte paralelamente até ela tomar todo o meu tempo. Esta aproximação aconteceu naturalmente pois me identifico muito com a liberdade que é o fazer artístico. Quanto a ser galerista e artista ao mesmo tempo é realmente um desafio pois não posso deixar minha produção de lado, e ser galerista exige muito de meu tempo. Porém um lado do trabalho me enche de energia para que eu possa completar o outro lado do trabalho. Os anos destinados a arte tem sido recompensadores.


FN: Então, para mim, a passagem de um campo profissional para outro, de forma assim tão fluida, pode indicar filtros de entrada semelhantes em certos aspectos. Por exemplo, os campos da publicidade e da arte, diferentemente de outros que demandam titulações e autorizações especificas, aceitam que algum interessado decida simplesmente ocupar algum lugar neles. Nos dois casos, em princípio, "basta" querer experimentar. E sobre as experiências marcantes que fizeram você se identificar com "a liberdade que é o fazer artístico" (e querer ser artista – e galerista)? Artistas, exposições, contextos, referências?


LF: Realmente, a arte é sedutora no aspecto em que agrega pessoas tão diversas e interessantes. Porém o raciocínio artístico é bem diferente da publicidade. Uma instalação que me marcou muito no campo da arte foi quando visitei a Tate Modern em Londres e havia essa instalação de um sol e espelhos de Olafur Eliasson, intitulada "The weather project". Achei aquela visão simples e artística e aquele espaço tornou-se um dos meus preferidos de todos os tempos. Gosto muito das instalações de Yayoi Kusama e ainda as aranhas de Louise Bourgeois. Admiro as pinceladas da portuguesa Paula Rego, acho que ela inclui uma tensão na pintura que eu aprecio. São tantos contextos artísticos que é difícil elencar um, de alguma forma escolhi as obras acima porém amanhã pode ser diferente!


FN: E, ainda assim, somada a essa diversidade de pessoas, temos filtros, regras que regulam e garantem –por certas conquistas, pela ideia de sucesso – a permanência no campo da arte, em suas diferentes instâncias e contextos. Gostaria de tomar como exemplo as galerias de arte de Curitiba: como você as percebe? Poder-se-ia supor um padrão de gestão, de objetivos, etc.? Fazendo um paralelo, para um artista é um feito notável participar de uma edição da Documenta de Kassel, evento de reconhecimento mundial; e para uma galeria, o que seria "notável"? Outra coisa: você poderia me falar um pouco da diferença entre o raciocínio artístico e o da publicidade?


LF: Sobre as galerias de arte de Curitiba acredito que cada uma tenha suas particularidades, do galerista e dos curadores convidados. Acredito que há uma variação grande no cuidado de escolha das obras de arte, porém isso é visível no resultado final das exposições. Não sei falar sobre as outras galerias muito bem, pois fico focada em meu trabalho. Procuro trazer o novo para as pessoas, surpreende-las com as obras de arte dos artistas da região. Acredito que temos artistas relevantes e a galeria participa desta construção com o artista, o pensar em uma exposição ambientada na galeria é contar uma história. Quando são oferecidas individuais principalmente, o artista tem a oportunidade de explorar aquele espaço de uma forma artística e também comercial. Ser notável em uma galeria é tornar tal artista reconhecido para o público amante de artes visuais.
Fazer esta ponte acontecer, que mais pessoas gostem e adquiram arte como forma de dar um significado maior para o ambiente que diariamente nos rodeia.
O raciocínio da publicidade tem início, meio e fim. Segue um objetivo, é cercado de termos de marketing para um objetivo claro de vendas. Já o raciocínio artístico é algo mais subjetivo, livre e filosófico. Fala sobre o ser. A produção artística de cada um é singular. A arte exige mais na sua produção, porém o resultado é muitas vezes surpreendente. A arte é um livro aberto, profunda e contínua.


FN: Mesmo com particularidades – o que deve ser o caso em vários negócios –, ao meu ver, com raras exceções, galerias de arte acabam sendo mais ou menos do mesmo jeito; com comportamentos parecidos, apenas com atores diferentes. Se isso estiver certo, parece existir algo que regule, que dê uma certa homogeneidade para esse tipo de negócio. Mesmo com o exercício de tais particularidades, seja de gestão, de orientação política, pela forma com que propagandeia certas tendências, etc., as galerias seriam, então, uma interface que se repete com certa constância, que faz com que ela seja reconhecida como tal. Você não acha que galeria de arte, em geral, tem cara de galeria da arte (independentemente de suas gestões atípicas)?


LF: Concordo que galeria de arte tem cara de galeria da arte. Acaba sendo um espaço expositivo frio. Cabe ao expectador perceber a diferença entre as obras que estão inseridas neste ambiente que é a galeria.


FN: Retomando sua resposta anterior, me fala um pouco mais sobre esta diferenciação entre "o raciocínio da publicidade" e o "artístico"; um com "início, meio e fim" e outro "mais subjetivo, livre e filosófico".


LF: Para mim na publicidade tem-se um briefing a seguir, onde tudo é pré-estabelecido, com foco claro em vendas. Na arte existe um encontro mais profundo, um pensar sobre o ser humano e o que o cerca. Há uma identificação subjetiva entre o expectador e a obra em si. Acredito que a obra de arte pode ter diferentes significados para quem vê, conforme a pessoa permite-se desvendar uma obra de arte, ela descobre diferentes camadas de significado em uma mesma obra. Já na publicidade os objetivos são mais diretos. É como se a publicidade respondesse uma pergunta e a arte ao contrário, questiona, deixa aberto para a discussão acontecer. Por isso é mais livre, subjetiva e com aspectos filosóficos na questão central do fazer arte.

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