my computer 

MY COMPUTER

Felipe Scandelari

08/mar a 05/mai '16

Um corpo entre a matéria e a imagem (onde tudo reage sobre tudo)

As novas pinturas de Felipe Scandelari transcorrem um caminho entre a banalidade do mundo e o tratamento irônico do sublime. Em cada uma delas encontramos um conjunto de imagens que confluem diversos tempos num corpo pictórico contemporâneo. Sua matéria, evidente em pinceladas a óleo precisas, não carregam mais os emplastros de pinturas anteriores, mas permanecem alterando nossa percepção tanto ao nos afastarmos quanto ao nos aproximarmos. De perto, vemos o corpo matérico da imagem, a tinta que escorre, a marca do pincel, uma primeira estrutura do quadro, o caminho de pinceladas que parecem singrar do vazio ao pleno. De longe, o corpo pictórico se transforma numa narrativa alegórica de sua própria matéria e ofício – a pintura. Essa transformação não se reduz ao nosso afastamento, mas o artista se propõe a ir mais longe, permitindo o afastamento que só uma fotografia é capaz de se afastar do seu referente. Qualquer um que fotografe seus trabalhos, da distância correta, perceberá.

Entretanto, os elementos que vemos nas suas pinturas existem, ou existiram em algum momento. São fragmentos de fotografias recolhidas ao acaso, membros de sua família e amigos que posaram para uma fotografia e depois foram pintados, objetos da sua casa, da sua filha ou do seu ofício. Todos eles se transfiguram numa imagem de seu domínio. Não há resistência, as coisas que o rodeiam adentram sua pintura como um cortejo de bens materiais e simbólicos onde prevalece o sublime do desfile. A acuidade técnica na execução das suas obras faz com que todos os elementos necessários para sua compreensão estejam evidentes. Os elementos estruturantes de uma pintura são de conhecimento geral, já foram assimilados pela cultura, e isso permite Scandelari nos colocar diante do absurdo, entre o sublime e o kitsch.

Repare: há um jogo de movimento e força no plano que se equilibra, mesmo que tudo resulte no absurdo. As representações humanas não são proporcionais, observando os elementos de um lado a outro da tela vemos um braço aumentar ou diminuir. Os gestos mais esquivos de uma madona ou de um herói são pegos em movimento, vibram estáticos, e há uma distorção também da perspectiva que se cria pela cor, como se o renascimento fosse refeito pelo pós-impressionismo. Do baixo ao alto, onde podemos encontrar variedades de poder ou força, algo ainda mais contundente acontece: o caos instaurado nas partes de baixo das telas, tal como um inferno reduzido a um ou dois elementos do ofício do pintor, como pincéis, tintas, estojos e até mesmo brinquedos, está protegido por um arco paradisíaco de céu, espalhado pelo alto. Mais do que significar alguma coisa, podemos ver os diversos textos pintados na vertical reforçando esse jogo de força em latitude, obrigando nossos olhos a subirem e a descerem.

Os diversos tempos da história da arte usados por Scandelari não param por aí. As suas novas pinturas são atravessadas por séculos de história da própria pintura e, mais do isso, de história da criação de imagens. Ao mesmo tempo, em meio a tantas coisas que podem ser ditas e relacionadas, há uma convicta tradução contemporânea do silêncio, com seus balões de histórias em quadrinhos ou de celulares vazios. Como se em algum momento, com todos os tempos presentes, ironias e procedimentos equivalendo-se, nada mais pudesse ser dito, fazendo prevalecer o silêncio.

Arthur do Carmo

Al. Pres. Taunay, 314

Batel - Curitiba/PR

CEP 80420-180

Tel: 41 3040 8016

  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon