na beirada da superfície 

Na beirada da superfície

Visitação de 17/mai a 23/jun 18'

 

Olhar as coisas ou o mundo, hoje em dia não é mais olhar ‘para’ como se o que olhamos estivesse distante e separado. Olhar as coisas hoje é olhar ‘de’ algum ponto inscrito no mundo, relacionado ao que se observa. Quando se olha as coisas desse modo, estando junto delas, o ato de olhar se torna parte do mundo, porque é constituído pela relação com ele. Percebe-se então que a parcialidade desse olhar também é informação sobre esse mundo. Olhar o mundo a partir de sua superfície é entender-se como um corpo que percebe seu entorno como ‘seu lugar’ e não como uma exterioridade.

A partir dessa superfície então percebemos, atuamos, construímos conjecturas, noções, entendimentos de nós mesmas, sobre esse lugar e tudo que o coabita. E armadas desse conhecimento, mais ou menos profundo, mas sempre parcial, reconstruímos tudo nessa base, que simultaneamente se instaura por meio do fato e da ficção na duração de nosso tempo[1]. A imagem que se forma a partir desse ponto de vista é um reflexo na superfície do espelho, pois inevitavelmente o observador se projeta para dentro do que é observado. O observador é também a superfície de onde ele olha. É nesse ponto que a imagem se borra e a miopia tira o foco de lugar, e nos perdemos entre nós e o mundo. A superfície das coisas nos causa essa confusão.

O sentido de superfície mistura, por movimento contínuo de intercâmbio, ideias distantes, práticas históricas, geografias, sensações. Isso porque, paradoxalmente, a superfície das coisas pode ser uma película de separação entre aquilo que a coisa é daquilo que ela não é, como nossa pele, parte externa e visível de nossos corpos, que nos separa daquilo que não somos. A superfície pode ser algo sem profundidade, algo rasteiro, do qual pouco ou quase nada entendemos, ou percebemos. Também pode ser um lugar determinado no mundo, como a superfície dos Andes ou a superfície de um lago. Ela ainda pode ser pura ideação, uma fantasia ou projeção do espaço bidimensional. E todos esses “podem ser” da superfície perpetuam sua condição de comutação.[2] A superfície destrói a linha de contorno, a divisa, e no lugar propõe a mutação do sfumato.

Em um passado de nosso tempo se dizia que “as primeiras partes da pintura são as superfícies”.[3] Naquele momento, a superfície tinha um duplo sentido intercambiável; aquele relativo à aparência da exterioridade das coisas, e aquele que se refere ao plano de projeção [a janela]. Esses dois sentidos estão, portanto, submetidos à noção de representação/ficção. A imagem reconhecível dita as características das superfícies do objeto pintura como equivalente de ‘imagemcoisa’; neste caso, palavras inseparáveis por sentido e ordenamento constituído, pois aqui a imagem está antes da coisa, repousada, encobrindo-a. O reflexo na superfície do espelho é tão vívido que impede de ver o espelho. Esta é a superfície que se camufla na sedução do mundo que se replica.

Mas, se a superfície é a primeira parte da pintura, como não vê-la? Como não permitir-se levar por sua topografia? Agora, em outro passado de nosso tempo, quando a noção de fronteira era indispensável à compreensão das coisas e do mundo, a superfície ganhou espessura e se separou. Então, seu novo sentido passa a ser de “uma superfície que expressa igualmente os resultados das forças internas e externas”[4] a si mesma. Perceber a imagem do mundo significa interferir nesse mundo, deixar a marca de sua mão nele. Este outro sentido de superfície contém a representação/ficção pela materialidade do fato. A imagem reconhecível está separada perceptivelmente de sua forma de fixação como itens distintos: a ‘imagem e a coisa’ ou a ‘coisa e a imagem’. O reflexo e o espelho se tornam presenças pela percepção/ação. Esta é a superfície que evidencia a rugosidade do mundo.

“O fenômeno da demolição do quadro, ou da simples negação do quadro de cavalete, e o consequente processo (...) da criação sucessiva de relevos, antiquadros, até as estruturas espaciais ou ambientais, e a formulação de objetos, (...) numa linha contínua, até a eclosão atual”[5] nos fizeram perceber o mundo como superfície. Achatadas pela literalidade dos fatos e enredadas por nossa própria ficção, construímos a ‘coisaimagem’. Nestes tempos de instantaneidade, o mundo, sua projeção no espelho, o próprio espelho e o ato de observar são e estão na superfície, coabitando. Se, por um lado, esse entendimento deixa tudo rasteiro e ordinário, por outro, “deshierarquiza”, horizontaliza as relações, nos deixa mais próximas e parecidas. Esta é a superfície que nos une.

Perceber a superfície, portanto, é sentir essa pele macia e sedutora, ao mesmo tempo em que nos confrontamos com o ritmo das cicatrizes incongruentes de nossas histórias nela gravada. Esta exposição propõe essa percepção a partir da beirada e sem parapeito para nos proteger. Daqui, podemos ver alguns tipos de superfície, presentes conosco.

 

Lilian Gassen - Curitiba, 01/05/2018

 

[1] SARAMAGO, José. A história como ficção, a ficção como história. Revista de Ciências Humanas, Florianópolis : EDUFSC, n.27, p. 09-17, abr. de 2000.

[2] VIRILIO, Paul. Espaço crítico. Tradução Paulo Roberto Pires. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993. pg. 13.

[3] ALBERTI, Leon Battista. Da pintura. Campinas: Editora da UNICAMP, 1989. pg. 107.

[4] KRAUSS, Rosalind. Caminhos da escultura moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1998. pg. 36.

[5] OITICICA, Hélio. Esquema geral da Nova Objetividade. In: FERREIRA e COTRIM (org). Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. pg. 156.

Al. Pres. Taunay, 314

Batel - Curitiba/PR

CEP 80420-180

Tel: 41 3040 8016

  • Black Facebook Icon
  • Black Instagram Icon