peso morto, corpo vivo 

PESO MORTO, CORPO VIVO

Eduardo Amato

Gio Soifer


Curadoria: Isadora Mattiolli

O mito do encanto capaz de transformar a matéria inerte em ser operante é o enunciado de contos das mais diversas origens. O Golem do folclore judaico, humanoide em argila, manifesta-se pela palavra divina. O monstro de Frankenstein (1818), da autora britânica Mary
Shelley (1797 – 1851), revolta-se contra o criador, que jamais revela como o trouxe à vida. Tetsuo, o homem de ferro (1988), desenvolve uma estrutura metalizada após uma cirurgia de prótese má-sucedida na perna, no filme dirigido por Shinya Tsukamoto (1960).

Pela experiência de construir um corpo e lhe soprar vida, Eduardo Amato (Castro, 1991) e Gio Soifer (Curitiba, 1991) apresentam nesta exposição trabalhos que aludem a um ser montado e desmontado, com partes que se regeneram e feridas que se desvanecem. Os artistas exploram uma corporalidade que é elaborada no imaginário do espectador, pois por onde se olha não há evidência da matéria – não há corpo além da sensação de um corpo.

As fotografias, instalações, objetos e desenhos expostos em Peso Morto Corpo Vivo tensionam uma presença confessada por sua ausência. As edificações tortas nos azulejos de Cursos primários, por exemplo, são mapas identitários onde se encontram desenhados percursos que levam a abrigos particulares. As linhas azuis formam os trajetos que nos orientam ao quarto de infância, à ressaca do mar, ao farol, ao jardim ou ao mais paradoxal abrigo do nosso próprio espírito.

A ideia de abrigo é explorada também no objeto Corpo estranho, dessa vez de maneira menos afetiva, pois enclausura um corpo retorcido, fragmentado, acomodado à estrutura que o suporta, e assim lhe confere uma configuração irreconhecível, monstruosa: a utopia de um corpo.


Por sua vez, no exercício de descrição do corpo pela fala, há sinais que o anunciam antes da linguagem. Há o riso decorrente do nervosismo, os goles de água amplificados pela garganta e o suspiro profundo que de antemão declara um corpo vivo. “Eu estou de olhos fechados”, primeira frase de um dos áudios da instalação Desvio concreto, é também a convocatória para compreender um corpo através da escuta.

Compreender um corpo não se trata apenas de assimilar seu peso, sua espessura, seu calor, suas veias e hematomas. O corpo não é neutro. Por sua existência ser historicamente constituída, o corpo ganha um gênero, um parentesco, uma religião e um estigma. Além do corpo há as roupas que ele veste, os acessórios que incorpora e os gestos que performa de acordo com a cultura.

O Talit, indumentária judaica, cobre os homens que rezam e os assemelham para o exercício da fé. É uma marca. Quando embalsamado em cera de abelha, perde sua função religiosa, tornando-se um peso morto para transformar-se em corpo vivo no campo da arte. Sua forma é preenchida por uma estrutura imaterial, feita de vento, soprando a memória de um corpo. O termo goi, para definir os não-judeus, representa outra marca. É uma distinção que define simbolicamente a presença de um outro. Na fotografia Goi, a marca registrada em fio dourado, faz do estigma velado uma cicatriz visível.

Quando a pergunta Você pode descrever o seu próprio corpo? foi feita a uma criança, ela depressa questionou: pode inventar? E é justamente pela ficção que podemos vivenciar uma nova experiência de corpo, imaginar-nos com asas, feitos de areia, tão grandes, tão enormes, até não sermos mais corpo. Até sermos outra coisa. Por meio da contemplação ativa, os artistas nos convidam a projetar um corpo pelos seus rastros, seus adereços, seus sons e seus discursos – e, assim, compartilhar a autoria de afirmar a vida.

Isadora Mattiolli

Al. Pres. Taunay, 314

Batel - Curitiba/PR

CEP 80420-180

Tel: 41 3040 8016

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