tente ver o oceano 

TENTE VER O OCEANO 

Maya Weishof 

Viajo porque preciso,
volto porque te amo

por Ulisses Carrilho


Este texto é dedicado aos que entendem o amor como razão plausível para enfrentar mares bravios.


Passa ao largo e tampa os ouvidos dos companheiros / com amolecida cera melosa, para que nenhum / outro as ouça; mas tu mesmo, se quiseres, ouve após te prenderem as mãos e os pés na nau veloz, reto no mastro, e nele se amarrarem os cabos, / para que te deleites com a voz das duas Sirenas. / Se suplicares aos companheiros que te soltem, que eles com ainda mais laços te prendam. / Após os companheiros te guiarem ao lado delas, dessa vez não mais te direi com detalhes / qual das rotas será a tua, mas tu mesmo, / no ânimo, considera; vou te falar de duas direções.
Canto XII em "Odisséia", Homero

 


Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais.


A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.
A Terceira Margem do Rio em "Primeiras estórias", Guimarães Rosa


Por meio da cor em bloco, Maya Weishof investe o gesto artístico na falência da cartografia. A representação por si só é fadada ao fracasso, o processo de tornar bidimensional o tridimensional é também fracassado. Na crista de uma onda com os pés fincados em uma prancha, é o surfista aquele que sabe: não há gráfico em curva potente o bastante para descrever a tensão de um corpo imerso no habitat natural.


Em "Tente ver o oceano" as pinturas apresentadas, que se valem das diferentes sortes de mapa como suporte, relacionam-se à invenção da paisagem natural na qual se desenvolve a investigação da artista. Nesta mostra, seja por meio da acrílica – notavelmente sintética –, seja com o cimento, há um gesto de acumulação e bloqueio da imagem que se apresentava no suporte gráfico. A artista atua sobre a coleção de mapas, sobre os quais deposita seus blocos de cor, e tal tensão parece tentar dar conta da vida em movimento [bewegtes Leben].


Num sensível gesto, manifestamente dá vazão ao desejo do espectador – basta notar que o título da mostra é ao mesmo tempo imperativo e dócil, num convite preciso que dá espaço à ineficácia. Em certa medida, os blocos geométricos inseridos sobre áreas das cartografias convidam àquele que os visualiza para o reconhecimento de um espaço heterotópico: fazem menção a lugares outros, não necessariamente determinados, cuja complexidade não pode ser visualizada instantaneamente.


Ao tentar mirar o oceano, o fato de tais espaços serem, por excelência, exemplificados com um navio não entrega-se como fruto do acaso. Como o barco, o gesto da pintura de Maya Weishof inscreve na superfície do mapa um espaço estático e flutuante, um lugar sem lugar, que vive por si mesmo: ao mesmo tempo fechado em si e lançado ao infinito do mar. Quando descreve o espaço heterotópico do barco que se lança ao oceano, para além da função de transporte e fator de progresso econômico e social, Michel Foucault comenta que ao passo que "os sonhos se esgotam" é na heterotopia que flutua sobre o mar onde reside "a sua maior reserva de imaginação".

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