tramas 

Tramas, no plural.

Maio/2015

A exposição “Tramas” apresenta dois artistas contemporâneos, Biel Carpenter e André Azevedo. Dizemos que esses artistas são contemporâneos por formalidade, indicando que o que produzem é recente, é feito por um artista que está imerso numa parcela das coisas que conhecemos e desconhecemos do mundo atualmente. Não se pretende aqui rotular uma produção segundo parâmetros da crítica em arte ou da ação cultural que envolve o termo, as referências e períodos com os quais os trabalhos aqui apresentados dialogam naturalmente – dado que a arte e a vida se dão num contexto de tempo –, mas dar ao público possíveis chaves de acesso por meio de uma leitura ficcional sobre as séries apresentadas.

“Trama”, enquanto palavra é ambígua, pode referir-se a um enredo, fatos que se entrecruzam para formar um contexto geralmente usado para se contar estórias e elaborar roteiros. Por outro lado, trama é um emaranhado de fibras, ordenado ou desordenado. A celulose é uma fibra, trama desordenada sobre outra trama de estrutura parcialmente ordenada, mediado por água, cola e carga (aquilo que preenche os espaços vazios entre as fibras) produz-se o papel na forma como o conhecemos. Um fio de costura são linhas fibrosas que se tramam umas às outras, dali os tecelões e os maquinários modernos produzem nossos tecidos, trama dentro de trama. O título da exposição pensa-se a partir dessa dicotomia e da diferença entre estes artista, que produzem, no agora, trabalhos em arte que estão sobre uma trama maior, o tempo.

O papel, na série de Biel Carpenter, é utilizado em um processo de introspecção que leva em conta suas implicações convencionais enquanto meio, como o artista comenta a respeito de seu processo de produção: “é um contato que se dá na hora do silêncio, na ausência de intenções, na observação. É na quase monotonia que encontro o meu trabalho.” Ou seja, o silêncio que se busca é também uma procura por uma falta de intenção, de modo que intenção é entendida aqui como narrativa de sentido e objetivação da imagem. Ao contrário disso, podemos dizer que na série sem título de Carpenter as figuras estão “soltas”. Quando entendemos que o que gera essa série caminha para o lado intuitivo do fazer artístico, um deixar acontecer na ação que produz as imagens, prevemos que o cotidiano e o universo subjetivo do artista se revelam em alguma parcela nesse processo, não de forma analítica, do tipo essa figura representa isso e essa situação aquilo, ao invés disso as figuras sugerem possíveis narrativa que particularmente cada um de nós pode criar. É intrigante pensarmos na relação de figura e fundo que esta série nos apresenta, se por um lado o artista apresenta uma figura isolada que se repete, “à sua imagem e semelhança”, estando só, quando não acompanhada de si mesma, observamos em outro momento dessa série a introdução do outro. Ainda que as figuras permaneçam sem um fundo preenchido ou uma linha de horizonte que se intua como orientação espacial, a introdução da diversidade do outro provoca uma situação gravitacional e automaticamente nos transporta para um universo social. Se a figura estática da menina que se repete está suspensa em um espaço “vazio” ou de “’vazio”, as figuras enforcadas e o homem sendo queimado na fogueira estão sobre uma gravidade e uma atmosfera totalmente distintas, ainda estando sobre um mesmo plano de fundo, ou melhor, papel não preenchido, as imagens que nos remetem a morte estão num contexto social e não isolado, enquanto a figura da mulher que se repete esta num estado etérico, como memória.

A máquina de costura no trabalho de André Azevedo funciona como uma extensão de seu corpo, o aparato tecnológico não perde sua função de costurar linhas, mas a operação a qual o artista sujeita a máquina cria uma outra implicação, desenhar paisagens e revelar corpos pictóricos – digo “revelar”, pois o que se apresenta é o verso do desenho que o artista enxerga em seu ato criador. A linha de costura perde sua função ordinária e mundana, aqui ela não se presta a juntar tecidos, ou unir uma parte a outra de um pano, a linha de costura aqui se torna aparentada do desenho, une uma parte a outra de um plano. A superfície que o artista escolhe para dar curso a essa linha que é ao mesmo tempo contínua e fragmentada é a tela de pintura, o que pode ser entendido como um comentário ou indício sobre os termos e a feitura de um objeto ao qual não possui um nome, mas que conversa com um passado recente da história da pintura. A máquina a serviço do artista o interrompe em seu processo, é tão temperamental quanto a escolha do artista por esta ou aquela cor de fio, a matéria independente de não ser tinta, continua a ser um limite e um desafio para o artista. Não se exclui as problemáticas que a pintura carrega consigo enquanto herança histórica. A eliminação do mediador tinta e sua substituição por linha de costura que gera corpo pictórico não resolve mais do que problematiza convenções sobre o que é pintura, a rigor existe um pensamento em pintura, uma tela convencional, paisagens e corres com linhas e corpos pictóricos. Outro momento em que Azevedo remonta a pintura está em suas “colagens” com tecidos, feitos com fio de solda, os retalhos são sobre postos e então grudados uns aos outros formando uma máquina abstrata que flerta com a paisagem, há em algum lugar uma linha de horizonte que, bem como as linhas de costura também permanecem enquanto elementos compositivos dessa estrutura.

Fica o convite a todos que queiram criar e unir suas próprias “tramas” a observação desses trabalhos. Anexando uma linha a mais num pensamento que não possui bordas ou um fim.

Samuel Dickow, 2015

Al. Pres. Taunay, 314

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