uni-versos 

O ideograma para a palavra cor

Uni-versos / Adriana Tabalipa 

15/Mar a 15/Mai 18' 

 

 

Inicio o texto como nunca faço, ou seja, de modo heterodoxo. Posicionei há alguns anos um trabalho de Adriana Tabalipa na minha sala, entre outros trabalhos importantes para mim. Nele, vê-se em tinta preta o desenho de um vestido sobre uma planta baixa de uma loja, num projeto elétrico-eletrônico de detecção e alarme de incêndio. O trabalho está ali porque representa parte da minha história: minha dupla formação, técnica e humana. Mas fundamentalmente o trabalho está ali, bem a minha frente, todos os dias, por se tratar de uma heterotopia. As heterotopias são contraespaços, no entender de Michel Foucault, que se contrapõem aos espaços comuns aos homens, sejam os espaços sob cujo céu os homens vivem sem discuti-los, sejam os espaços criados por eles, cujo céu não existe em lugar algum, a não ser na imaginação, mas sob cujo azul os homens talvez desejassem viver.

 

Vejamos: o que é uma planta baixa senão o desejo de uma perfeição? Perfeição do sonho do arquiteto, projeção da vontade do engenheiro, carta-mapa para o artífice das coisas práticas, como instalar um cabo, depois fios e por fim a lâmpada ou um sensor. Ao mesmo tempo que a planta é imaginária, ou seja, vive mais num plano de ideias, ela é palpável. Ela é uma linguagem, arbitrária, mas de lógica comum entre pelo menos dois seres: o que  usa uma linguagem para dizer algo a outro e o outro que a lê. De todo modo, esse espaço criado por homens é o da perfeição, do desejo da perfeição, da vontade da perfeição, onde nada poderia dar errado. Ao desenhar um vestido sobre uma planta baixa, Tabalipa perverte todos os mundos anteriores aos dela: ela cria uma heterotopia, para a qual há de se entender os movimentos internos desse mundo. Os corredores estão ali e os cabos também, mas há um grande vestido que paira sobre esse universo técnico, um vestido como o traçado de uma criança que foge para um lugar imaginário, e o vestido assume o primeiro plano, rouba a cena, sobrepõe-se. É como se o quadro (hoje, um quadro) me dissesse todos os dias que vivemos entre as utopias e um universo real e massacrante — e entre esses dois e os espaços heterotópicos que a arte, por exemplo, pode nos trazer.

 

Como isso daria um livro todo sobre a investigação de Tabalipa, avencemos.

 

Certo dia encontrei por acaso com a artista num café e ela me levou a uma casa onde trabalhava uma instalação para uma bienal. A instalação e o trabalho dela era a casa toda. Na entrada, uma placa comum no trânsito: “DESVIO”. Cada objeto da casa era uma escultura; a reunião deles, instalação, e a casa toda um evento, onde foi realizada posteriormente uma performance. Do trabalho da minha sala até essa casa-acontecimento, pude mergulhar um pouco na pesquisa estética da artista radicada no Rio. Tabalipa vive a arte no seu dia a dia e a casa, o ar, a água, o gesto, quem a habita, enfim, têm importância para ela. Tabalipa é a artista por excelência das heterotopias, desses espaços reais e míticos a um só tempo, que se opõem tanto ao real (ao palpável) quanto ao imaginário (mesmo que presente nas plantas-baixas, nas bulas, nas placas de trânsito), em relação às linguagens criadas e arbitrárias. Frequentar o trabalho de Tabalipa é mergulhar nessas linguagens, que dialogam aqui e ali, e percorrer seus limites. O interessante é que, ao habitar esses espaços, eles mesmos um processo e um dizer, ela pode nos acompanhar, de mãos dadas.

 

Que sirva de introdução esse começo que não é dela e, sim, meu.

 

Gostaria de chamar a atenção para o que a artista expõe na galeria Boiler, nesse momento: são trabalhos em acrílica e bastão-óleo e óleo sobre tela, em proporções variadas. Provavelmente, o que mais chamará a atenção são cor e forma, notadamente a presença marcante do círculo, inserido ele por sua vez em quadrados e retângulos. Essa preocupação com a cor e a forma por si só já seriam de interesse, porque a artista investiga com rigor os limites de uma matéria que ela chama “primeva”, seja o uso da cor em si, seja a prática de determinadas técnicas (pintura, gravura, etc.). Como a artista tem uma longa história com a apropriação, ela tem pesquisado, hoje, os limites das técnicas ainda pertinentes nas artes plásticas, em vários momentos, modos, formas do agir. Nessa busca, Tabalipa reencontra terrenos antigos, nem sempre amigáveis (pois que mudaram ao longo do tempo e do espaço, heraclicamente, digamos), mas os quais pode percorrer à cata do novo.


Há aí algo que a artista chama “embate”, e que muito me atrai porque possibilita um questionamento sobre o trabalho dela. O embate se dá com o material e com o discurso.

 

Tal descrição deixa por detrás de uma névoa todo um histórico de pesquisa e desenvolvimento, de uma artista preocupada com a forma, com a linguagem, com o objeto, com a performance, com a ação, seja pela presença do corpo, seja pela atuação desse corpo nos espaços internos e externos onde ela atua. Explico melhor: há trabalhos anteriores de Tabalipa, como o Cura-dores, em que utiliza invólucros de medicamentos. Há o Fogueira das vaidades, objeto com utensílio de cozinha e produtos de maquiagem. Há colares gigantes feitos com peças de plástico comuns na cozinha, entre outros. Muito já se disse que Tabalipa reorienta o objet trouvé duchampiano. Gostaria de sobrevoar um pouco esse dito e ir um pouco além. Tal reorientação em Tabalipa diz respeito à criação das heterotopias citadas acima. Há alguns traços dignos de nota: o emprego da cor (típica em utensílios domésticos), que aqui está par a par com a investigação dela sobre a cor em si mesma e seus limites, o uso de materiais cotidianos, que ganham novo status e razão de existência, certo gigantismo (que aparece nos colares e nas instalações de repetição exaustiva — e mesmo em trabalhos de pequeno porte mas de cuidadosa reorganização dos objetos, colados, instalados lado a lado como num puzzle, ou na criação de um universo novo, como cada trabalho fosse uma maquete de cidades ou de uma geografia imaginária), o uso da linguagem escrita/sonora como uma ponte possível de interpretação, a desterritorialização do conhecido. Há um espaço aí a ser sondado, em que a ironia (procurada ou involuntária), a crítica (involuntária ou procurada), a materialização de um inusitado discurso se dá. A palavra (desvio, curadores, fogueira) remete à coisa, ao objeto e ao discurso. Embora a discussão seja presente nos processos modernos do fazer artístico, aqui ela tem outra dimensão, pois que em níveis, os quais por sua vez se pode ir retirando como um jogo de bem-me-quer/mal-me-quer, como na sobreposição de quimonos de uma vestimenta clássica japonesa, como naquelas bonecas eslavas, de muitas camadas. De todo modo, um desvelamento.

 

Os trabalhos da artista não se resumem às telas, portanto. Na exposição com os desenhos sobre plantas-baixas, em particular, as linhas não respeitavam os limites do suporte (e da moldura) e invadiam as paredes do espaço expositivo. Essa procura pela liberdade, o enfrentamento ao meio e a não aceitação do aprisionamento são características notáveis do envolvimento de Tabalipa com a pesquisa artística. Ela se rebela em vários níveis, em várias esferas, eu ouso dizer, senão ficaria no terreno do apenas palpável ou no etéreo mundo das utopias. Aqui, as circunferências invadem o campo de outras superfícies, que tinham uma camada de tinta. Uma vez coloridas, passam a integrar o espaço já como círculos, como planos. Uma vez círculos, eles se agrupam, intersecionando-se, gerando novas formas. A materialidade da tinta traz para a frente a imagem euclidiana, quase um volume. Um ponto não decifrável desse processo está no como a artista faz as circunferências perfeitas: com objetos do ateliê, alguns usados em outras instalações e processos. Tais trabalhos, então, estão de mãos dadas com projetos anteriores, como um grande colar, que a artista monta aos poucos. Existe diálogo aí, com vozes anteriores, existe procura aí, enfrentamento, vivência, busca e presença constante. A busca de Tabalipa investiga passagens possíveis. Então, a casa, o objeto, a cor, o som, a palavra, a água presa num saco plástico, a placa de trânsito levada para a casa, tudo isso se desloca do campo comum para um de enfrentamento, embate, releitura, talvez de apaziguamento…

 

Para quem acompanha o trabalho dela no ateliê e na vida prática, talvez estranhe quando a ouve falar do “espiritual” na sua busca. Não é o sentido comum ou banal dado à palavra: ele tem mais a ver com o esforço sondado e esmiuçado por Kandinski.

 

Como a artista tem em mente um diálogo com a linguagem escrita/falada, a ideia de intersecção importa. Ora, a intersecção diz respeito a elementos que pertencem a dois ou mais conjuntos simultaneamente. Queria frisar esse ponto: o simultaneamente. Ela não abandona os mundos anteriores, não os isola ou aniquila: ela faz com que eles coexistam. Assim, o vestido coabita o espaço da loja, que por sua vez é representada numa forma do dizer/fazer/mostrar, que por sua vez exige um leitor para interpretá-lo, assim sucessivamente, como uma corrente mágica e infindável. Então temos que a intersecção e o simultâneo se encontram, no que eu chamo, para o trabalho dela, de uma pesquisa ideogramática. O ideograma é a presença na linguagem mais marcante de um sonho: ele deseja apontar a coisa e ser a coisa, opondo-se às escritas alfabéticas e silabárias. Sabemos de seus limites, claro, pois toda escrita é arbitrária. Mas aqui não temos uma escrita formal: a escrita de Tabalipa frequenta mundos paralelos, que ela coloca em franco diálogo, em espaço (criando heterotopias) e tempo (criando heterocronias).

 

Dia desses vi uma foto da artista americana Helen Frankenthaler, fotografada como se “dentro” do seu trabalho. Se eu fosse fotografar Tabalipa, para fazer uma narrativa de seu processo, seria assim: ela imersa no seu trabalho, suja de tinta, dentro dele. Ela habita seu trabalho como poucos. No entanto, diferentemente dos abstracionistas, há não apenas uma espécie de figurativo nesses trabalhos, mas uma narrativa, pois eles não se circunscrevem no terreno das telas e dos pincéis e espátulas. A artista tem procurado um caminho de sintetizar suas discussões (algumas delas, pelo menos, algumas inquietações) e esta mostra é o resultado desse processo: “chegar a algo mais assertivo”, em suas palavras. De todo modo, ela permite que a pintura fale por ela mesma. Algo muito bonito nesse caminho recente da artista é o reencontro com a pintura, que acaba sendo um portal, um portal de descobertas pessoais e também para quem pode apreciar o resultado dos trabalhos que a Boiler coloca à disposição, esses ideogramas muito especiais e heterotópicos.

 

A heterotopia tem como via de regra sobrepor espaços incompatíveis, imaginava Foucault em 1966. Aqui, eles vibram como uma bela narrativa literária ou como no ideograma para a palavra “cor”. Eu colocaria lado a lado com ele um ideograma para a palavra “forma” e talvez um para a palavra “diálogo” e assim por diante.

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